O Pai Nosso e o Perdão

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Algumas pessoas dizem-me ter dificuldades com a parte do Pai-Nosso em que se pede a Deus que nos perdoe tal como nós nos perdoamos aos outros. As pessoas acham que não são capazes de garantir um perdão universal. E, portanto, infere-se, há alguma injustiça em pedir a Deus que nos perdoe na medida em que perdoamos. Mas, se pensarmos bem, tem que ser assim, porque se nós não quisermos perdoar a alguém há um lado nosso que resiste ao perdão de Deus. Quer dizer, há um pecado nosso em que fazemos finca pé e de que, portanto, não nos arrependemos: «não perdoar». Agora se o leitor me disser: "Mas eu não consigo perdoar àquela pessoa". Ah, isso é diferente. "Não querer" é muito diferente de "não conseguir". A este propósito, tente seguir o meu raciocínio nos parágrafos que vêm a seguir.

 

Quanto a não se querer perdoarO funeral mais difícil que eu tive de fazer foi de uma Senhora de idade que tinha sido espancada até à morte dentro de casa, a que depois de roubarem deitaram fogo. Compreendo que a família, depois de uma monstruosidade, não esteja com cabeça para perdoar. No entanto, lá está o preceito do Pai-Nosso que não abre excepções para casos muito monstruosos.Há situações que, embora não sendo tão trágicas, também não nos deixam perdoar com facilidade, e muitas vezes somos nós que temos razão. Mas a questão não é essa. A questão é que temos que perdoar e não estamos a conseguir perdoar. (Nem queremos ouvir falar da pessoa(s) em causa, quanto mais perdoar.) Bem, enquanto temos o coração neste estado de ebulição, o melhor é mesmo não mexer na ferida. Nem para perdoar nem para nada. Há aí uma ferida que tem que cicatrizar e é o tempo que vai ter essa função.Quando já conseguimos pensar no assunto, lá vem a questão do perdão. Mas nós sentimo-nos muito ressentidos com essa pessoa, temos uma memória muito viva do que nos aconteceu, não conseguimos esquecer, não conseguimos perdoar, embora saibamos que o devemos fazer e até o queiramos fazer.Aqui, impõe-se fazer três distinções.

 

1. O ressentimentoAs pessoas a quem espancaram, matando, a Mãe vão ficar ressentidas durante muito tempo, durante muitos anos, talvez durante toda a vida. Isto não quer dizer que não perdoaram. Quer dizer que aquele acontecimento tão monstruoso vai ficar ali como uma ferida aberta toda a sua vida. Também nas nossas vidas pode acontecer algo parecido. Podem ter-nos acontecido coisas que nos feriram tanto que nos fica um ressentimento, uma ferida ou uma mágoa toda a vida. Isto não é não perdoar. É um fenómeno psicológico que revela saúde mental. A uma experiência desagradável corresponde um sentimento desagradável. Quando pensamos na festa da nossa formatura, da nossa ordenação, sentimos uma sensação agradável porque foram acontecimentos agradáveis. Também não significa que vivamos agarrados ao passado. Significa tão somente que à recordação de um acontecimento agradável corresponde uma sensação agradável.

 

2. O esquecimentoTambém há pessoas que me dizem: "Eu bem queria perdoar mas não consigo esquecer". Esquecer não tem a ver com perdoar. Eu posso perdoar e não esquecer. Eu não esqueço nada do que tem uma grande repercussão dentro de mim. Não é costume as pessoas esquecerem-se da sua 1ª Comunhão, do dia do seu casamento, da morte de alguma pessoa querida, etc. São acontecimentos que marcam. Da mesma maneira, eu não consigo esquecer uma coisa que me fizeram e que me magoou muito, porque foi um acontecimento importante, um acontecimento que me marcou. É por isso que eu não esqueço, e não porque não perdoei. Perdoar não é esquecer.

 

3. O perdãoO que é então perdoar?Vamos supor que agora já conseguimos pensar em perdoar. Então, o primeiro passo é querer perdoar. Chegámos a um estádio em que queremos perdoar mas não conseguimos. Nesta altura, o que há a fazer é rezar para que Deus nos ajude a querer perdoar. E assim vamos andando até o nosso coração de pedra se ir transformando num coração de carne.Ficarmos "ressentidos" com o que nos fazem é normal. (O ressentimento é a lembrança magoada de um acontecimento.) Mas não enraivecidos. Às vezes, ao ressentimento junta-se alguma raiva. Nesse momento, ainda não estamos prontos para perdoar. É quando já estamos em paz que conseguimos perdoar. E o que é perdoar?Primeiro, o que o perdoar não é.Perdoar não significa ficar amigo de quem se perdoa. (Se bem que seja isso o ideal). Muito menos passar a convidar essa pessoa para nossa casa. Alguma vezes, nem sequer significa ser-se muito simpático para essa pessoa. Ou mesmo falar com essa pessoa. (Desenvolverei este tema no próximo artigo.)O que o perdoar é.Perdoar é conseguir desejar bem a alguém. Se conseguirmos desejar-lhe bem com a nossa vida, se as circunstâncias se abrirem para nos darmos bem com ela, óptimo; caso contrário, pelo menos temos que lhe desejar bem.Este desejar bem tem várias etapas. Primeiro, sermos capazes de rezar por essa pessoa. Entregar essa pessoa nas mãos de Deus já é um passo que denota um coração de carne. Ao mesmo tempo, não lhe desejamos mal. Depois, já lhe desejamos bem. E, por fim, se possível, estendemos-lhe a mão.

 

Gonçalo Miller Guerra, s.j.

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